quarta-feira, 30 de março de 2011

A INTERPRETAÇÃO DA OBRA DE ARTE

A Interpretação da Obra de Arte


Por meio de obras de arte o artista comunica com os outros seres humanos. A obra de arte pode assim ser considerada uma mensagem. Esta é portadora de sentido e é veiculada sob a forma de linguagem (sonora, visual, verbal).
Ora, o que frequentemente se verifica é que a mensagem artística se manifesta numa linguagem simbólica.
Em termos gerais, um símbolo é uma espécie de signo que tem um poder expressivo que, em parte, depende da imaginação do ser humano.  É uma realidade perceptível pelos sentidos e mediante a qual expressamos outra realidade. Eis alguns exemplos:

Realidades simbolizadas                              Símbolos
1.O amor                        Uma rosa, o desenho de um coração…
2.A justiça                     Uma balança…
3.A liberdade                Voo do pássaro, grades desfeitas…
4.A paz                           Pomba branca, mãos dadas…

A comunicação artística utiliza signos linguísticos (literatura), sonoros (música), visuais (artes plásticas, cinema, fotografia) e o que especificamente caracteriza essa comunicação é que tais signos se transformam em plurissignos, isto é, em símbolos. Os símbolos, e sobretudo os símbolos na linguagem artística, são signos polissémicos e plurivalentes1.

A linguagem artística, ao contrário da linguagem quotidiana e da linguagem científica, não é informativa ou explicativa: é plurissignificativa, isto é, rica em significações e conotações. Aqui reside o seu poder sugestivo — será tanto mais intenso quanto maior for a nossa capacidade de interpretação, de associação e de inter-relação simbólica. Neste sentido, a obra de arte é uma obra aberta a diversas leituras que, embora diferentes, não se anulam umas às outras e que, inclusive, podem ser realizadas, em diferentes momentos, por uma mesma pessoa.

A avaliação estética de uma obra de arte exige não só uma análise formal e técnica, mas também uma análise dos conteúdos que tenha em conta o seu carácter simbólico1, isto é, a sua riqueza significativa.

Escolhemos a pintura como manifestação artística na qual a nossa reflexão se vai centrar.

1 Uma vez que a distinção entre signo e símbolo é polémica, entenda-se esta noção de símbolo como meramente metodológica e operatória.

Certas correntes actuais como a hermenêutica e a semiótica salientam que o conteúdo de uma obra de arte é esteticamente tanto mais valioso quanto maior for a sua capacidade de sugerir significações, isto é, de abrir potenciais simbólicos. A obra de arte é tendencialmente aberta e comunicativa. Ora da sua capacidade de comunicação depende em grande parte a sua durabilidade, o seu poder de interpelar, seduzir e cativar não só os contemporâneos como os vindouros. Para além do que uma obra mostra da técnica, do estilo e das concepções formais do artista, importa que ela seja capaz de gerar níveis de comunicação simbólicos.
Muitas obras de arte contêm um grande conjunto de elementos simbólicos, isto é, de objectos que não valem só por si mesmos, mas que representam conceitos, ideias e seres cujo sentido não é imediatamente dado e que compete ao receptor da obra descodificar. É evidente que há obras com uma rede simbólica complexa que a tornam objecto de múltiplas interpretações e outras cuja riqueza simbólica será, por assim dizer, produzida pela própria interpretação, isto é, pela imaginação e entendimento do contemplador. Em termos ideiais, a “leitura” de uma obra pictórica implicaria que estudássemos:

a) A sua dimensão técnico-formal
            — Materiais utilizados
— Tratamento de elementos como a cor, o desenho, a luz, a perspectiva
            — A composição

b) A sua dimensão simbólica ou sugestiva

c) Elementos exteriores à obra artística
— Conhecimento da história da pintura
— Conhecimento da época em que o artista viveu: das transformações históricas, filosóficas, científicas e técnicas, da mentalidade dominante
— Conhecimento de outras obras do artista e da sua evolução criativa
— Conhecimento da interpretação que o próprio artista  obra em geral
— Conhecimento das suas concepções sobre a natureza e a função da obra de arte
— Dados biográficos sobre o artista

É evidente que é de todo impossível cumprir estes diversos requisitos para a compreensão de uma obra de arte no tempo e espaço de que dispomos. Esta metodologia fica simplesmente como proposta de orientação caso interesse ao aluno aprofundar a interpretação de determinado quadro.
Iremos dar relevo à dimensão simbólica de algumas obras pictóricas e apelar à interpretação pessoal do aluno notando desde já que o simbolismo da obra de arte é também dado pela própria interpretação. Há “dicionários de símbolos” que nos ajudam na exploração do conteúdo simbólico de uma obra e há quadros repletos de elementos simbólicos cujo sentido está de certo modo fixado. Isso não impede, contudo, o carácter pessoal da interpretação porque na complexa rede simbólica que nesse caso o quadro constitui diversas relações se podem estabelecer entre os símbolos.

Exemplo 1

Goya, O colosso.

Este quadro de Francisco Goya, pintor espanhol do século XIX, tem como subtítulo O Pânico. Representa um conjunto de homens e de animais fugindo apavorados em diversas direcções. O quadro é dominado por um ser de forma humana, mas de proporções colossais ou supra-humanas. Esta figura imensa e aparentemente aterradora dá a impressão de encher o céu e não dirige o seu olhar para os minúsculos seres aterrorizados que na planície procuram pôr-se a salvo. O colosso parece de passagem, encaminhando-se para outro local. O que simboliza esta surpreendente figura?
Várias interpretações foram dadas:
— Uma versão apresenta o colosso e o quadro em geral como símbolos dos horrores da guerra, da desorientação, da insegurança e do medo que ela provoca. O colosso seria a personificação da guerra, esse pesadelo constantemente presente na história dos homens. A guerra seria como que uma força insaciável que provoca enorme destruição e pavor à sua passagem. O facto de o gigante dar a impressão de se dirigir para outras paragens sugere que outros seres humanos vão sofrer os desastres da guerra.
— Outra versão insiste no facto de o colosso estar de costas para a multidão e sobre essa base — que não vamos agora discutir — não o identifica com uma força maligna e destruidora. N. Glendining, grande intérprete da obra de Goya, diz mesmo que o colosso simboliza um poder: seria o símbolo da encarniçada e tremenda oposição que o povo espanhol ofereceu aos exércitos napoleónicos. O medo e terror simbolizado pelas pessoas que fogem com os seus eventuais haveres — animais domésticos descontrolados — convive com o desafio e a inabalável resistência e vontade de independência do povo espanhol. O colosso representaria assim a parte da população que se ergue contra os invasores e o aparente ar de desafio e de fúria do gigante é, nesta perspectiva, muito sugestivo.
— Encarou-se também o colosso como uma entidade protectora do povo espanhol contra os exércitos de Napoleão. Tal interpretação para além do que é óbvio  — vejam-se os acontecimentos históricos dos inícios do século XIX e a história de Espanha nesse período — inspirou-se num poema da época e da autoria de J. B. Arriaga, “Profecia de um pirenéu”, que descrevia a aparição de um génio tutelar de Espanha para lutar com todo o seu poder contra as ambições de Napoleão. Olhando para o quadro, pode admitir--se esta interpretação: que o gigante esteja de costas para a multidão simbolizaria não um abandono, mas uma barreira protectora atrás da qual os seres ameaçados pela guerra se refugiariam.
— Uma interpretação nossa é esta (e não invalida de modo algum as outras): a parte inferior do quadro representa o pavor, o medo e a insegurança que a perspectiva da guerra causa. A parte superior do quadro, ao representar um ser de dimensões colossais, seria a forma simbólica de expressar que os instintos violentos, agressivos e destruidores parecem forças colossais que ultrapassam e dominam os homens, que as guerras têm como causa forças que o homem não consegue controlar.
— Outra interpretação possível: a guerra é obra dos homens e assume frequentemente proporções desumanas.



Exemplo 2

N. Poussin - Uma dança para a música do tempo.
Neste belo e suave quadro de Poussin, a nossa atenção é atraída de imediato para quatro figuras que dançam formando um círculo, uma roda. Houve diversas interpretações do significado deste grupo de dançarinos e, sem dúvida, ele contém uma enorme riqueza simbólica. Podemos ver nesse grupo a representação de quatro aspectos da condição humana: a figura que olha para nós com um ar sorridente e malicioso simbolizaria o Prazer e o facto de no quadro ser a única personagem que nos encara significaria que o prazer é aquilo que mais valorizamos e apreciamos, melhor dizendo, é o motivo fundamental das nossas acções; a figura que, no primeiro plano do quadro, aparece com o cabelo adornado por pérolas e luxuosamente calçada simbolizaria a Riqueza. A figura feminina que aparece descalça, vestindo de forma humilde e parecendo querer agarrar a mão da Riqueza, simbolizaria a Pobreza; a única figura masculina envolvida na dança está também singelamente vestida, mas tem na cabeça uma coroa de louros que simboliza a vitória, o sucesso, a fama, mas também o engenho. Tal como a Pobreza, dirige o seu olhar para a Riqueza.
Numa primeira interpretação de carácter geral este quadro apresenta numa linguagem sensível, pictórica e simbólica (e não discursiva ou conceptual) uma reflexão sobre os valores fundamentais em torno dos quais gira a vida humana, sempre condicionada pela presença do tempo (o velho que toca a música). Se dermos mais importância ao factor “Quem olha para nós? Quem nos convida a entrar na dança da vida?”, chegamos à conclusão de que o prazer é aquilo que mais nos atrai, ou seja, o mais desejado, o mais valioso aspecto da vida. Mas se nos concentrarmos na relação que as quatro figuras estabelecem entre si vemos que a Riqueza é a rainha da dança: o Engenho (a capacidade de trabalho e de empreendimento) e a Pobreza parecem depender da Riqueza para que a dança continue e anseiam pela mão esquerda, ao passo que o Prazer segura firmemente a outra mão.
Nesta perspectiva, a Riqueza seria o bem supremo, o valor que dá sentido e orienta a acção dos seres humanos. Dela depende o prazer. Esforçamo-nos, trabalhamos e desenvolvemos o nosso engenho (a técnica e a ciência?) para a obter e é sonhando com ela que suportamos a condição de pobres.
Também se pode interpretar o quadro como simbolizando a qualidade da vida humana em diversos períodos históricos. A história humana seria marcada pelo ritmo das transformações e das mudanças: épocas de prazer, luxúria, riqueza (pensemos nos gloriosos anos 20) dão alternadamente lugar a períodos em que a pobreza, a miséria, a fome e a destruição exigem dos seres humanos o engenho, a criatividade e o trabalho duro que os faça triunfar sobre essas adversidades.
Apresentámos estas interpretações, mas outras são evidentemente possíveis. Convidamos o aluno a realizar essa tarefa, deixando uma série de pistas a explorar:
— O Tempo, senhor que tudo dirige no mundo humano, é representado por um homem idoso, dotado de asas e de um corpo jovem e musculado. Marca o ritmo da dança, sem qualquer entusiasmo, olhando fixamente para os dançarinos.
— É acompanhado por duas crianças (dois querubins): uma sopra bolas de sabão e a outra contempla uma ampulheta que tem mais areia na parte superior do que na inferior.
— Num quadro pleno de imagens contrastantes, uma coluna de pedra suporta o busto duplo da velhice e da juventude (o busto de Janus) e está decorado com flores, coisas efémeras, transitórias.
— No céu um carro puxado por cavalos é conduzido por Apolo (deus do Sol), que simboliza a ordem e o comportamento civilizado. Aurora, deusa das estações e irmã de Apolo, orienta o caminho da carruagem. À sua passagem são afastadas as escuras nuvens da noite. A dança desenvolve-se, portanto, ao nascer do dia.




ACTIVIDADES


1

 Matisse, Ícaro.
Tentar compreender o significado ou os possíveis significados do quadro de Matisse implica o conhecimento de uma personagem da mitologia grega: Ícaro (é o título do quadro). O mito de Ícaro relata-nos que, estando Ícaro e seu pai Dédalo prisioneiros num labirinto em Creta, conseguiram escapar. Inventaram umas asas e voaram. Contudo, Ícaro voou demasiado alto e o Sol derreteu as suas asas. Caiu ao mar e morreu. Para Matisse o mito de Ícaro é um símbolo da condição humana e aquele decidiu traduzi-la em termos pictóricos.
Para proceder à sua interpretação deve o aluno ter em conta os seguintes aspectos:

— Ícaro é uma enorme silhueta negra.
— O único ponto do seu corpo que aparece representado por outra cor é o coração e está pintado a vermelho ardente.
— Que forma têm os braços?
— Qual o significado que podemos atribuir ao facto de as pernas serem tão volumosas e pesadas e o coração tão pequeno, mas tão ardente?
— O que representam os fragmentos de cor amarela?

Este quadro é uma interpretação da condição humana. Simbolicamente, que mensagem ou que mensagens podemos considerar que Matisse nos transmite?


2
 Salvador Dali, Cristo de S. João na Cruz
O quadro de Salvador Dalí representa um tema frequente na cultura ocidental. Esta representação de Cristo na cruz é original porque o seu sofrimento parece visto a partir de um ponto elevado (perspectiva impossível) e por outro lado não se vê o seu rosto. Vários aspectos chamam a atenção nesta obra de grande rigor simétrico.
— A escuridão e a densidade emocional da parte superior do quadro — onde está o Crucificado — contrastam com a serenidade da baía e a luminosidade do céu na parte inferior.
— Está a cruz a cair em direcção à terra? A elevar-se ao céu? Paira estaticamente sobre o mundo dos seres humanos concentrados nas suas tarefas?
Conforme a perspectiva que adoptarmos, teremos uma diferente interpretação do significado do quadro. Procura efectuar este exercício.

3
Magritte, A memória.
Apresentamos algumas interpretações possíveis do quadro da direita.
Aparece um busto a sangrar tendo por trás um muro de madeira.
A memória é aqui representada sob o signo da dor. Porque é que ela sangra?
Porque possivelmente recordar é sofrer, talvez porque alguém gostasse de voltar a viver certas situações e contudo isso não é possível. O muro simboliza essa impossibilidade de voltar atrás, de se voltar a viver algo que nos deu muito prazer ou com alguém de quem gostámos muito. Mas também pode significar que quanto mais vivemos mais sofremos, mais momentos dolorosos vamos registar na nossa memória.
Finalmente, este quadro também pode simbolizar a dor de quem sabe que a vida tem um fim. A bola que aparece ao lado do busto, quase fechada, pode querer dizer que a vida está a atingir o fim.
Convidamos o aluno a dar a sua interpretação pessoal do mesmo quadro.

4
Magritte, A casa de vidro.
Este desconcertante quadro de Magritte (como quase todas as suas obras) mostra-nos um indivíduo que contempla o oceano e a linha do horizonte. O que nos surpreende é o seu rosto aparecer também na parte anterior da cabeça dando-nos a impressão de estar a olhar para a frente e para trás ao mesmo tempo. A um elemento familar (contemplar o oceano) associa-se um elemento estranho, absurdo (o próprio título do quadro parece nada ter a ver com a imagem). Mas é esta surpreendente estranheza que o torna imensamente sugestivo para quem reflecte sobre o seu significado (para Magritte a pintura era “a arte de pensar”). Então o que poderá significar?
Este quadro pode simbolizar uma situação psicológica de desconfiança ou até de receio perante os outros (a calma do mar sossega-nos, mas atrás de nós — no passado ou no presente — algo parece inquietar-nos). Pode traduzir a obsessão de controlar os movimentos de tudo o que vive à nossa volta, de não se deixar surpreender pelos acontecimentos.
Outras possíveis interpretações ficam por explorar.

Convidamos-te para essa tarefa.

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